Sobre ser ridículo

Por que a gente tem tanto medo de ser palhaço?| Palhaços da Cia. La Mínima (foto: Carlos Gueller/ Divulgação)

Meu celular acabou de apitar avisando que está na hora de ir pra cama — mais uma das minhas tentativas de ter uma rotina — e como assim já é 1 AM? Tem tanta coisa que eu queria fazer, o dia não pode acabar já. Mas provavelmente melhor ir dormir pra acordar cedo amanhã e fazer essas coisas, né? Acho que é a coisa mais madura a se fazer, não?

Tomo a última dose daquele remédio homeopático e não escovo os dentes — desculpa mãe — por preguiça. Uma vez me falaram que a pasta de dente altera o PH da boca e atrapalha a eficácia do remédio, então era melhor ter um intervalo de meia hora entre um e outro, mas hoje eu não quero esperar. E deitar na cama pra levantar de novo e escovar os dentes não faz sentido.Não tem outro jeito, vou ter que encarar essa. Ser adulto ,às vezes, é ter que tomar uma decisão difícil dessas, uma decisão que vai contra a educação que seus pais te deram. Eu sei que aqui no Brasil a gente leva higiene bem a sério, diferente de outras culturas e países, então sinto-me obrigado a dizer que em geral eu sou bem limpinho, mas que às vezes a preguiça entra no caminho. E ninguém é perfeito!

Ainda em certo conflito com a minha decisão rebelde de não escovar os dentes, eu me enfio debaixo do edredom, com um travesseiro entre as pernas e outro na cabeça, esfrego meus pés no lençol só pelo prazer que isso proporciona, imerso no breu total — a pior coisa pra mim é quando há no quarto um roteador ou aparelho da NET, que têm uma luz que geralmente a gente nem repara, mas quando o quarto ta todo escuro parece que eles se transformam naquelas pessoas inconvenientes que batem na sua porta domingo de manhã, realmente empenhados na missão de trazer luz para a escuridão. Sei lá, péssima analogia, enfim, só estou feliz porque não tenho nenhum aparelho eletrônico chato no meu quarto— pronto para ter um sono que eu provavelmente não mereço, tanto que eu posso começar a fazer uma lista agora de coisas que eu devia ter feito e não fiz.

“Ah, já que estamos fazendo uma lista, não dá pra deixar de lembrar daquela vez que você foi cumprimentar um vizinho no elevador e sua voz não saiu” diz o meu amigão cérebro, ele que não me deixa esquecer de todas as coisas ridículas que eu já fiz. Tipo aquela vez que eu fui dar uma entrevista pra TV e eu fiquei tão nervoso que a minha narina ficava abrindo — já aconteceu com você? Por favor, me diga que eu não sou o único ser humano com quem rola essa parada da narina.

De repente todos os momentos embaraçosos ganham um replay na minha mente. São tantos que eu só posso chegar a uma conclusão: eu sou ridículo. Não é a primeira vez que isso acontece, eu já estou vivo tempo o suficiente pra ter percebido isso em outras ocasiões, pra saber o quão ridícula pode ser a experiência humana. Essa conclusão em geral me deixa mal, me faz reavaliar toda a minha vida: como eu cheguei aqui? O que eu to fazendo da minha vida? Como eu posso mudar isso? Tudo para evitar cair no ridículo de novo, para ser mais esperto da próxima vez.

Só que hoje assisti “Plagiacci” que a Cia. La Mínima tá apresentando no teatro da Fiesp — dá um google, vale a pena — e eu já fui com certos olhos, minha prima já havia assistido ao espetáculo e iniciou uma conversa comigo sobre como a tolice do palhaço dá uma redenção à nossa própria. De modo que quando, em certa altura eles falaram de dois tipos de palhaço: um que é tolo e outro que não se sabe tolo, eu prestei bastante atenção. Enfim, não quero dar nenhum spoilers, mas ter assistido me fez pensar que talvez sejamos todos tolos e isso me tirou um peso. Alivia um pouco saber que outras pessoas também passam por isso, apesar de eu ainda não saber se eu sou o “um” ou o “outro”.

Talvez sejamos todos uns ridículos e tudo que a gente sempre faz é pra tentar mascarar isso. Tudo que já foi feito pela humanidade é na verdade um “olha aqui como eu sou espertão”. Ou talvez esse seja só um dos meus muitos pensamentos ridículos. Mais um pra lista, cérebro!

Bom, já que eu levantei da cama pra escrever isso, melhor escovar os dentes né. Pasta na escova, escova na boca, olho no espelho, fico ali me encarando, que ridículo!

— originalmente postado no medium em 17/04/2017 —

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