O propósito da ideias e as ideias com propósito

Eu tenho muitas idéias, principalmente antes de dormir ou no banho — eu sei, bem clichê — mas o fato é que eu percebi que eu sou um criador de ideias. Igual algumas pessoas criam ovelhas ou galinhas. Eu, crio idéias, to sempre tendo uma ideia super elaborada, não gosto das muito simplórias. Sou do tipo que sonha grande. Eu gosto disso: de ficar ali pensando em soluções de moradia, em novas séries de TV e caminhos para a educação, mas de alguma forma, eu comecei a me contentar em só ter a ideia e a nem se quer colocá-la no papel, quanto mais executá-la. E isso começou a me incomodar.

Percebe que não há sentido nenhum em só se ter a ideia? O propósito das idéias é a ação, elas são como planejamentos, um guia para experimentarmos alterar a nossa realidade de alguma forma, seja trazendo uma solução ou modificando algo existente, lançando um novo olhar sobre o mundo. Fato é que uma ideia só é boa, digna de ser assim adjetivada quando testada.

E talvez com medo do adjetivo eu não esteja pondo meus devaneios em prática. Sim, porque eu só quero ter boas idéias. Mas sinto que é o momento de transpor esse medo, e não só, de transpor a necessidade de as ficar julgando antes de colocá-las ao menos no papel — este sim pode ser um bom juiz — e as que passarem pelo crivo da ponta do lápis, alimentarão em nós a vontade de realizá-las. A chave é: uma ideia tem de ser experimentada, isto é, posta em prática, o máximo que pode acontecer é ela não dar certo, ai então você vai ter que ter outra ideia pra resolver essa situação.

O atual momento que vivemos pede mudanças e elas só virão através de pessoas insatisfeitas. E pessoas insatisfeitas têm idéias, porque elas imaginam como as coisas poderiam ser diferentes. E não só: elas têm a obrigação de realizar mudanças, porque só assim o mundo segue evoluindo. Todas as inovações que nós conhecemos foram produzidas por pessoas insatisfeitas, que sentiam que não se encaixavam no mundo que viviam, que enxergavam a possibilidade de algo diferente. Quem está satisfeito com a vida que leva, com o emprego que tem não vai mover uma palha para mudar algo, vai apenas aceitar sua realidade e não subvertê-la. Por isso eu digo, se você está insatisfeito com o nosso modo atual de pensar relações de trabalho, de pensar educação, política, moradia, mobilidade urbana, agricultura, enfim, saiba que essa sua insatisfação é um convite a fazer algo, a usar o seu poder intelectual e pensar, sonhar um modo diferente, e não só: a Agir!

O rabino Nilton Bonder em seu livro “Alma Imoral” — levado ao teatro em um monólogo de sucesso por Clarice Niskier — defende que a alma seria intrinsecamente imoral, isto é, programada para subverter a norma, e que isso gera e possibilita a evolução. Imagina se tivéssemos nos conformado com as regras dos tempos de Moisés? Se Copérnico e Galileu não tivessem ido contra a igreja? O mundo que viveríamos seria bem diferente, atrasado até, sob nossa ótica atual e isso só é possível porque pessoas que não tiveram medo de cumprir a programação original de sua alma — a transgressão — existiram. Portanto, há a necessidade de subversão para que um mundo novo surja.

Esse novo mundo tem direito de nascer, as nossas ideias têm direito de nascer! O que não dá mais é pra ficar fazendo mais do mesmo, ficar repetindo aquela fórmula que nem faz mais sentido. Toda a nossa lógica de vida em sociedade está morta e apenas esqueceu de se deitar. O capitalismo está morto. E não sou só eu quem diz, quem disse isso foi Paul Mason, editor de economia da BBC e autor do livro Pós-Capitalismo: Um guia para nosso futuro. Mas não precisa só acreditar nele ou em mim, é só olhar em volta e ver se o modo como organizamos as coisas está funcionando, se o modo como nos relacionamos com o mundo e uns com os outros está funcionando bem. Tá em dúvida ainda? Não sabe do que eu to falando? Olha a disparidade econômica, olha quantas pessoas estão vivendo abaixo da linha da pobreza, olha o desmatamento da Amazônia pra fazer pasto, olha a crise da nossa democracia, olha os relacionamentos abusivos, olha as mortes por excesso de trabalho. Tá certo tudo isso? É assim mesmo? Só nos resta aceitar?

Não. As coisas não são assim, as coisas estão assim, porque assim as fizemos. Nós inventamos esse jogo e suas regras e se ele não ta mais funcionando para gente, deveríamos inventar outro jogo. A gente esquece que é vítima de algo que a gente mesmo criou, e fica agindo como se fosse uma força da natureza. “A economia vai mal”, a gente fala isso como se fosse algo além do nosso controle, um tornado que chega devastando tudo. Ué, a gente não inventou essa tal economia para nos ajudar, se ta atrapalhando, ACHO que ta na hora de colocar outra coisa no lugar, não?

A Eliane Brum escreveu um texto ótimo sobre como nós não podemos mais alegar inocência ou ignorância: já sabemos do impacto do nosso consumo, do preço pelo nosso estilo de vida, não dá mais pra se esconder por trás disso, não dá mais para se dizer preocupado com o meio-ambiente e a continuar a comprar de marcas que destroem o planeta — e a gente sabe quando rola um greenwashing, acabou o tempo da inocência. Nós temos de nos conscientizar de que consumo é poder, porque ao comprar algo, ao dar o seu dinheiro para uma empresa, você a está financiando, você está dizendo “É isso que eu quero ver mais no mundo”.

Comprar orgânico, de pequenos produtores locais, diyupcycling, reciclagem, são muito mais do que moda, são o futuro. Assim como as iniciativas que repensam e atualizam uma escola que parece ter parado no século XVIII, o consumo consciente — a mudança da lógica da posse para o acesso, você conhece o House of all em Pinheiros? — e os novos jeitos de morar: tanto em construções com menos impacto ambiental, quanto no que diz ao compartilhamento de residências (coliving) e pequenas comunidades (cohousingecovilas). Estes elementos são muito mais do que fugazes tendências de consumo e moda, são indicadores, são visões do futuro.

Mas mais importante do que enxergar essas incongruências do nosso modo de viver atual é sentir. É sentir o incômodo, é sentir que não está tudo bem, é sentir a vontade de mudança.

Os incomodados que se mudem, não é? Pois eu digo: Os incomodados que mudem, mudem a si mesmos, mudem o mundo. Mudem!

Nós os incomodados temos é de sonhar, ficar grávidos de idéias, para depois pari-las, pois só fora de nós elas poderão encontrar pessoas que vão cuidá-la com tanto carinho quanto nós, pessoas que irão adotá-la e a fazer ganhar força e se tornar algo muito maior que nós. Alguns pais orgulhosos de seu desapego batem no peito e dizem “Eu crio meu filho para o mundo” e já que fiz aqui uma comparação com gravidez, natural que te diga que: crie suas idéias para o mundo, a gaveta não é o lugar ideal para ela, assim como não é para seu filho. Seja o canal para a mudança, se permita ser. Se permita ter idéias, não tenha medo das suas idéias!

Todos os avanços tecnológicos nos permitiram ter mais acesso a informação, a fortalecer nossas redes. Num cenário tão propício como esse, o que estamos esperando para espalhar nossas idéias por ai?

— originalmente postado no medium em 15/5/2017 —

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