A odisseia de se tornar adulto

Frances Ha – Noah Baumbach

Deu no New York Times: David Brooks escreveu um artigo em que ponderava que as fases da vida não são mais apenas: infância, adolescência, vida adulta e velhice; mas que agora temos pelo menos seis estágios: infância, adolescência, Odyssey Years, vida adulta, segunda carreira e velhice. Odyssey Years sendo o período que tem mais intrigado nossa sociedade. A década de errância, geralmente após o término da faculdade, que ocorre entre a adolescência e a vida adulta.

O artigo é de 2007 e embora vivamos em um mundo de mudanças continuas e frenéticas, continua extremamente relevante e parece dar conta da realidade que encontramos ainda hoje(tanto que é utilizado por Stanford). O conceito de anos de odisseia deriva da obra homônima de Homero e faz referência a grande jornada da personagem principal, que em nossa realidade se traduz na década de experimentação de carreiras, de relacionamentos e jeitos de estar no mundo que os indivíduos neste estágio da vida enfrentam para se tornarem adultos.

Millennials

A geração millennial é constantemente retratada como mimada, reclamona e a geração do “troféu de participação”. É exatamente esta geração que está atravessando os Odyssey Years. Talvez esta noção ajude a olhar com mais empatia para nós, pois até agora temos nos provado capazes de adaptar e persistir.

As gerações anteriores não tinham esse período de transição: passavam de adolescentes à adultos. Saiam da faculdade para empregos que eram carreiras traçadas com destino a aposentadoria. Compravam imóveis e tinham filhos. Hoje em dia, são poucos os indivíduos que atingem estes marcos da vida adulta antes dos 30 anos. E talvez estes marcos não façam mesmo sentido em um mundo fluído.

O mundo que encontramos ao sair da faculdade é muito diferente daquele que nos preparamos e que as gerações anteriores encontravam. Agora tudo está em suspensão e tudo é fluído, o que pode nos dar combustível para explorar, mas também gera grandes incertezas. Uma boa estratégia para quando não se sabe para o que se está preparando, é se preparar para tudo. E é isso que boa parte de nós tem experimentado fazer: explorar todos nossos potenciais e aptidões. Na prática, você pode nos ver pulando de um curso para o outro, mudando de um emprego em uma área para outro em outra completamente diferente. Um olhar desatento enxerga ai uma inconstância, mas os olhares investigativos e inquietos percebem que são apenas incursões da grande odisseia de se tornar adulto.

Mas, afinal, o que é um adulto?

Quando nos tornamos adultos? Em nosso aniversário de 18 anos quando atingimos a maioridade legal?

Pensar os estágios da vida humana é pensar no arco de evoluções que acontecem na vida de uma pessoa. A fase adulta da vida seria, então, o momento em que nossas habilidades e ferramentas sociais e emocionais já estão desenvolvidas e temos condições então de assumir responsabilidades, sustentar paradoxos difíceis como realidade X desejo, solucionar problemas e ter direcionamento pessoal (criar um senso de propósito para própria vida).

Na sociedade ocidental moderna, o ser adulto está intrinsecamente ligado à marcos de vida: construção de uma carreira estável, a estabilidade financeira demonstrada através da compra de um carro ou uma casa e a construção de uma família. É mais sobre o reconhecimento social, e menos sobre a jornada pessoal.

O sentido da Odisseia

O conceito de Anos de Odisseia nos permite compreender melhor o que realmente acontece: a velha noção de que o adolescente se torna adulto apenas por aniversário ou habilidade de assumir compromissos financeiros não parece mais dar conta da realidade.

A maioria de nós tem preferido navegar os mares da incerteza e experimentação antes de se precipitar a se autoproclamar adulto ou a buscar alcançar os tais marcos de vida apenas para garantir o reconhecimento social de se tornar um ser adulto. Trata-se de uma busca com mais propósito e autenticidade.

Nos livrar da pressão de nos tornar adultos logo não significa evitar assumir responsabilidades, pelo contrário, é assumir a principal responsabilidade: de assumir o direcionamento da própria vida, fazendo escolhas conscientes e não compulsórias.

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